Um conceito é básico para entender toda a movimentação em torno dos festivais independentes: sem eles, grande parte dos artistas de hoje (independentes ou não) como Nação Zumbi, Los Hermanos, Autoramas e Detonautas, teriam sua carreira profissional dificultada ou atrasada. No começo dos anos 90, várias bandas utilizavam caminhos alternativos para divulgar seus trabalhos e chegar a uma gravadora. Esse caminho havia sido criado por bandas underground do fim da década de 80, como Pin Ups, Killing Chainsaw e Second Come. Elas cantavam em inglês, não eram unanimidade na imprensa e dependiam de seus próprios meios para existir. Faziam shows em locais pequenos, vendiam suas próprias fitas demo e usavam os fanzines como principal meio de divulgação. Este era considerado um "desvio" do esquema do rock brasileiro de então, quando estúdios caros, empresários e muita grana eram o único caminho para se criar uma carreira. Nomes como Raimundos, Pato Fu, Little Quail & The Mad Birds, Chico Science & Nação Zumbi, Concreteness, Planet Hemp, brincando de deus e dezenas de outros pegaram esse "desvio".
Em 1994, com a estabilização econômica do Plano Real, bandas, gravadoras independentes e fanzines aperfeiçoaram o modelo underground de fins dos anos 80, unindo a ideologia do it yourself e contatos país afora. Mais eficiente do que fazer tudo sozinho era unir várias bandas, vários fanzines, várias gravadoras independentes em um único evento: nascia o festival independente.
No Brasil, o histórico de eventos desse tipo era praticamente nulo. Os festivais da época passavam longe de ser independentes: Rock in Rio e Hollywood Rock eram eventos de marca, atrelados ao mainstream e muito distantes da realidade do nascente mundo independente. É histórica a campanha dos fãs para incluir o Sepultura, no auge do sucesso do disco Arise, no Hollywood Rock de 1993. E isso porque a banda já nem fazia mais parte do cenário independente na época.
A estabilização da economia ajudou o nascimento da cena, mas também impulsionou o mercado musical brasileiro dos "grandes". As gravadoras majors criaram fenômenos de venda como Mamonas Assassinas, a axé music, o pagode e o sertanejo. Turbinada por discos que vendiam centenas de milhares de cópias, por um mercado fonográfico que era o sétimo maior do mundo e por muito dinheiro, instaurou-se uma espécie de "monocultura musical" no país. A saída, mais uma vez, eram os festivais independentes.
Fugindo do período do primeiro trimestre, "quando nada acontecia na cidade, a não ser o axé", o produtor Paulo André montou o Abril Pro Rock no quarto mês de 1993, e assim vem sendo há 14 edições. "Todos achavam loucura, mas percebi que algo de novo acontecia na cidade e que faltava um lugar para as bandas se apresentarem", relembra. Paulo era dono de uma loja de discos em Recife e viu no evento uma saída para divulgar seu negócio e a música de seus amigos e clientes, além de reunir a emergente cena musical local. Há quilômetros de distância, Bruno Levinson, produtor do festival carioca Humaitá Pra Peixe, teve visão semelhante: "Sempre enxerguei no Humaitá uma vitrine para que os artistas se desenvolvessem, para que pudessem criar carreiras a médio e longo prazo", explica. "Era muita gente boa sem espaço para tocar."
Com a devida atenção da imprensa, as grandes gravadoras perceberam a novidade e passaram a enviar "olheiros" aos festivais. Consagrado no primeiro Juntatribo, que teve cobertura ampla da MTV, a banda brasiliense Raimundos foi contratada pelo selo Banguela, uma parceria dos Titãs com o produtor Carlos Eduardo Miranda, distribuída pela Warner Music.
Atentos a essa movimentação, mais festivais surgiam. No Rio de Janeiro, sede das grandes gravadoras, nasceu o SuperDemo. De Curitiba veio o BiG, uma insanidade com quase 100 bandas. Em Salvador, o Boombahia. Em São Paulo, o Screamadelica. Em Goiânia, surgia o Goiânia Noise Festival, hoje considerado o principal festival independente do país e cuja primeira edição aconteceu em 1995.
Mesmo sendo cria da primeira leva de festivais independentes, o Goiânia Noise só se estabeleceu e tornou-se referência quando optou pelo formato que hoje é usado por quase todos os outros eventos semelhantes: seus shows acontecem em locais de médio porte, sempre com dois palcos, 75% das atrações são independentes, muitas delas originadas na própria região onde o festival se realiza e usando leis de incentivo para alcançar subsídios (mas o evento não deixa de acontecer caso a verba não saia).
Se durante a segunda metade dos anos 90 os festivais independentes eram vistos apenas como provedores de novos talentos para o mainstream, a cena começou a mudar no começo da década atual. Antes, a principal propaganda dos festivais era ter revelado uma banda para o mercado fonográfico. A história diz que o Abril Pro Rock revelou a cena mangue, a banda baiana Penélope e o Los Hermanos; o festival MADA de Natal lançou o Detonautas; o Humaitá Pra Peixe empurrou a carreira do Planet Hemp e de Marcelo D2.
Atualmente, em um cenário onde a tão falada "crise do mercado fonográfico" e a nova orientação política iniciada com o primeiro mandato do governo Lula dão as cartas, a ordem é seguir uma orientação auto-suficiente voltada para o fomento do mercado independente como fim, e não mais como meio. O discurso mudou: o que mais se lê em jornais são as bandas questionando se vale a pena assinar com uma grande gravadora.
A maior função dos festivais continuava sendo gerar o intercâmbio entre bandas, fanzines, selos, produtores e jornalistas, mas agora está ligada principalmente ao próprio mercado independente. Aí mora a grande diferença do modelo atual em relação aos festivais da década passada: o evento passa a ser visto como um amplificador da produção musical e cultural daquela região.
No final de 2005, 14 produtores dos principais festivais nacionais se reuniram em Goiânia para criar a Abrafin (Associação Brasileira de Festivais Independentes). Segundo a associação, para ser independente, um festival deve escalar pelo menos 75% de artistas não ligados às gravadoras multinacionais, não pode ser gerido pelo governo, não pode ser bancado por grandes veículos de comunicação ou por grandes empresas. Pelo estatuto, Tim Festival, Claro que é Rock, Nokia Trends e Skol Beats não são considerados festivais independentes, pois são financiados por grandes marcas. Da mesma forma, eventos como Ceará Music, Planeta Atlântida e Festival de Verão de Salvador não poderiam se associar. Atualmente, parte da verba de um festival independente vem de apoio governamental.
Além dos altos custos, a montagem das programações dos festivais surge como problema, os altos custos de produção, interessa diretamente ao Governo Federal. Curiosamente, o Ministério do Trabalho e Emprego se interessou pelos festivais antes que o Ministério da Cultura. "A política do governo atual é conversar com todos, com os 'grandes' e com 'os pequenos' e detectamos nos festivais uma forma organizada de autogestão que interessa ao programa de economia solidária", explica Manetti.
Contando com bandas novas ou consagradas, com ou sem dinheiro, com verba do governo ou ajuda privada, com milhares de pessoas na platéia ou com apenas uma centena delas, a existência do festival independente é diretamente relacionada à perseverança de seus organizadores. A dificuldade de transpor barreiras e atingir um público mais amplo representa um dos grandes obstáculos dos festivais independentes - obstáculo este que os organizadores adoram tentar transpor.
FONTE: http://www.rollingstone.com.br/edicoes/4/textos/201/


1 comentários:
E pra quem ficou curioso para conhecer algumas das bandas citadas no texto, tipo Killing Chainsaw, Second Come, Pin Ups e muitas outras dessa mesma época, visitem: http://webhermetica.blogspot.com
Tem muita informação, fotos, videos e álbuns completos para download.
Valeu!
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